Para Débora

Você foi uma irmã muito desejada. Eu já tinha dois irmãos e queria mais. Fiz esse pedido ao pai e a mãe. Algumas vezes, à noite, sentada no chão diante da porta fechada do quarto do pai e da mãe, eu orava a Deus para que me concedesse mais um irmão ou uma irmã.

Deus atendeu o meu desejo. Na época, não era possível saber o sexo do bebê, se menina ou menino. Sim, claro, participei da escolha do seu nome. O pai e a mãe pensaram num nome de menina e não gostei. Um dia falaram em Débora. “Débora? Que nome mais lindo! Ah, sim, esse eu gosto!”. Como nossa mãe era uma grávida linda! Muito ágil e fazia mil coisas, nem parecia carregar um bebê em seu ventre.

Então, na sexta-feira do dia 5 de abril de 1985 (sexta-feira santa!), na hora do almoço, você nasceu! Que felicidade! Como você é fofa! Só queria sempre estar com você, tê-la em meus braços. Temos quase 11 anos de diferença de idade e eu sempre me sinto responsável pelo seu bem-estar e desejo o melhor para a sua vida. Ah, era tão bom chegar em casa depois do colégio e ver você. Vivia encantada com você, tão linda, tão fofa!

A fofa do meu coração!

No carro, sentada na cadeirinha de bebê, eu costumava perguntar a você colocando as suas mãozinhas no peito: “O que há no seu coração?”. A Elisa, nossa irmã, respondia: “Carne e feijão!”. À noite, eu e a Elisa pegávamos você e levávamos ao nosso quarto. Era o nosso momento de brincar com você, de vê-la rir. Tão bom isso!

A Débora ri mais no colo de quem? Da Elisa.

Aprendeu a nadar ainda bebê. Como você gosta de água, hein! Se vamos a praia, piscina ou rio, vibra de alegria. Outra paixão sua é comer, principalmente quando vamos almoçar ou jantar fora de casa. Você é uma excelente jogadora de basquete. Cada acerto na cesta! Muito melhor do que eu. O pai e o Leandro, nosso irmão, te ensinaram muito bem. Ah, você gosta também de música e de passear por aí! Lembra-se dos nossos passeios no Beto Carrero World? Que te levei para fortes emoções? Como nos divertimos! Nos brinquedos mais perigosos, pensei em ir sozinha. Mesmo explicando como é, você quis ir comigo. Como você gritou na montanha russa! Porém, você contava comigo para o que der e vier, não é mesmo?

A jogadora de basquete!
Débora e seus brinquedos.
Débora na praia da Armação, em Florianópolis.
Eu, papai e Débora em nossa casa em Joinville.
Almoço em Florianópolis.

Lembro de uma vez, você ainda pequena, com cerca de dois anos de idade, estávamos na rua de nossa casa com vários vizinhos. Nossa rua sem saída e asfaltada era palco para brincar com os vizinhos, mal circulavam veículos na época. É transversal da Rua Guanabara, uma das principais vias de nosso bairro, muito movimentada e perigosa. Você estava ao lado da mãe, da Anny e de outros vizinhos adultos. Eu, mais longe, conversava com alguém que não me recordo mais quem era. De repente, ouvi os gritos da mãe e da Anny. Você tinha disparado em direção à Rua Guanabara. Todos nós corremos atrás de você. Consegui te agarrar assim que você pisou os pés na Rua Guanabara. Foi assustador e desesperador! Depois respiramos aliviados e agradecemos a Deus.

Débora com um ano de idade.

Na outra vez que gerou desespero e baita susto, você com cerca de 18 anos de idade, saiu da Igreja sem nos avisar. Naquele domingo de manhã a programação demorou para se encerrar. “Cadê a Débora?” Todo mundo saiu a sua procura. Achamos que você tinha pego o ônibus para ir pra casa. O problema é que você nunca tinha feito isso sozinha. Fomos a nossa casa e concentramos a procura pelo bairro e seus arredores. Em certo momento da tarde, você apareceu andando e entrando na nossa rua! Oh, graças a Deus! Sua justificativa: estava com fome e queria almoçar em casa.

A sua vida é bem difícil e lembre-se de que estamos de passagem no planeta chamado Terra. Há um lugar maravilhoso e sem sofrimentos para todos aqueles que aceitam Jesus como nosso Salvador. Foram muitas crises depressivas que você sofreu. Certa vez, em drama existencial disse ao pai: “Não sou Down!” Ninguém é perfeito e nem igual ao outro. Cada um tem a sua beleza e a sua luta. Muitas vezes, você vive em outro mundo e conversa com os amigos imaginários. Há ocasiões em que eu consigo me intrometer no seu mundo perguntando “Quem é?” ou “Com quem você está falando?” e você se diverte me dizendo quem é e me faz participar da conversa. Fico tão feliz quando você volta ao mundo real.

Débora sempre gostou de cabelos curtos.

Minha querida irmã, você é tão extrovertida! Gosta de falar e cumprimentar todos os que estão em sua volta, especialmente na Igreja onde você frequenta. Ah, festa é com você mesmo! É tão maravilhoso te ver folheando o calendário e apontando com o dedo que tal dia é aniversário de alguém. Quando é sobre o seu dia, você explode de alegria e quer festa. É emocionante ver o seu rosto por comemorar a vida!

Os irmãos Vieira. Aniversário de 30 anos da Débora.
Foto usada no convite do aniversário de 26 anos da Débora.
O Feliz Natal da Débora!

Ah, Débora, que corajosa você foi durante o tratamento e a cirurgia de redução do cumprimento da língua quando tinha 18 anos de idade! Uma garota destemida e sem frescura! O resultado ficou excelente e a sua fala e respiração melhoraram bastante. Você é uma grande parceira e boa companhia em passeios e até em meus compromissos. Fazia questão de me buscar na Prefeitura de Joinville, meu primeiro emprego. Lembra disso? O pai esperava no carro, enquanto você ia ao meu encontro. Você se tornou conhecida pelos meus colegas. Alguns ligavam para o meu ramal telefônico avisando a sua presença. Meus olhos brilhavam ao saber disso ou quando você aparecia de repente em minha sala.

O que dizer da época da faculdade de jornalismo? Os meus colegas mais próximos do curso também se tornaram seus amigos. Quando estava na reta final do curso com muitos trabalhos a serem entregues, certa vez você abriu a porta do quarto e disse: “Estou com saudades, quero sair com você!” Isso me emocionou e me deixou mais motivada a concluir os meus estudos. Algumas vezes você foi comigo para fazer trabalhos da faculdade em campo. Você sempre educada e sendo uma ótima parceira! Era tão bom ter você comigo! No baile de minha formatura, você estava radiante de felicidade! Parecia que você era a formanda e não eu. Como dançou bastante, hein!

Débora vibrando com minha conquista!

Ah, Débora, como te amo e te admiro! É tão espontânea, autêntica! A pandemia do coronavírus foi um castigo a todos nós, principalmente para você. Reclamou, ficou braba, protestou e chorou. Mesmo assim, se cuida bem e fica em casa. Só saiu em extrema necessidade como ir ao médico e tomar vacina. Vamos, Débora, estou te esperando para novas aventuras! Vamos de novo no Beto Carrero? Força, guerreira! Não temas e nem se assuste, Deus está contigo! Sinto saudades de você!

De sua irmã que te ama muito, Luciana.

Nossos pais e Débora.

Sabendo mais

Anny, nossa segunda mãe e amiga da família.

Débora faleceu de sequelas do Covid-19 em 13 de agosto de 2021 aos 36 anos de idade. Alguns dias antes, em 8 de agosto, Anny, nossa segunda mãe e grande irmã para a minha mãe, morreu em consequência do agravamento do Mal de Parkinson aos 84 anos de idade. Não casou e nem teve filhos. Ops, teve sim! Muitos filhos do coração, incluindo eu e meus irmãos. Como ela era divertida e sempre disponível e rápida em ajudar o próximo!

Enquanto a Débora estava internada e sedada há quase um mês em hospital, um amigo meu sugeriu escrever uma carta a ela. “Que excelente ideia, vou fazer isso!” No dia seguinte, ela partiu. Queria tanto escrever a carta… Bem, não desisti da ideia. Aqui está e todos podem ler.

Até o porvir, Anny e Débora!

 

Histórias de família

Luciana Vieira Visualizar tudo →

Blog que compartilha a minha alegria em pedalar. Evidente que não há só alegria, porque sabemos muito bem que o nosso país não valoriza os ciclistas. Melhor dizer: não pensa em todas as pessoas como os pedestres, os cadeirantes e os idosos. Além das experiências de minha vida como ciclista, este espaço trata sobre outros temas, mesmo não tendo relação com a bike. Dou um alerta: o fato de gostar de pedalar não significa que sou especialista nessa temática. Aqui são histórias, opiniões, relatos, o que vier da minha mente e eu julgar interessante de contar. Na primeira postagem deste blog, convido a ler sobre o motivo de se chamar Aquela que pedala. Quem escreve? Sou a Luciana Vieira, tenho deficiência auditiva e moro em Florianópolis/SC. Atuo como assistente administrativa em empresa federal de energia elétrica e, desde 2013, procuro usar a bicicleta para me deslocar ao trabalho. Comunicação Social com habilitação em Jornalismo é a minha formação acadêmica e não exerço a profissão. Sempre gostei de escrever e já tive o prazer de dar uma de escritora em blogs de amigos como o Máquina de Letras. Mais segura em escrever e expor no meio virtual, decidi ter o meu próprio cantinho. E assim Aquela que pedala vem a ser a varanda de meus escritos. Sugestões, opiniões, críticas? Escreva para o e-mail aquelaquepedala@gmail.com

24 comentários Deixe um comentário

  1. Muito lindo, Luciana. Quantas saudades da Débora, minha xará, amiga do Filipe. O que nos consola é saber que um dia vamos nos encontrar. Um beijo

  2. Lindo texto, Luciana! A Débora fez parte da minha infância. É verdade, a gente não sabia lidar bem com ela, mas era problema nosso! Lamentei a sua partida e daqui de longe mando um abraço a você e toda a família!

  3. Lu, grande texto ! Repleto de recordações e emoções. Me fez conhecer mais a Débora. Parabéns. Creia, hoje ela está bem, ao lado de seu Papai na terra e do Papai do Céu!!! 🙏 Uma tranquila noite de Natal para você , Anita , Elisa,Leandro e demais familiares. Amo vocês! ❤😘🍀💐🌿

  4. LInda “carta”. Depoimento muito emocionante. Você é uma pessoa iluminada, Luciana. Tem o dom da escrita. Sentimentos puros e espontâneos. Beijos no seu coração e um Natal muito feliz a vc e família: cheio de saúde, luz e serenidade, lembrando sempre do aniversariante do dia.

    • Oh, Regina, obrigada, quanto tempo não nos vemos! Um grande abraço e também desejo a você e sua família um Natal muito feliz! Sim, vamos lembrar do aniversariante do dia: nosso querido Jesus!

  5. Lindo prima Lu como foi bom ler seu texto, ver as fotos, logo nos veremos todos novamente e para a eternidade viveremos ao lado do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo 🙌🏻

  6. Lindo demais o texto. A Dedé foi uma das melhores pessoas que passaram na minha vida. Lembro e falo dela até hoje, e convivi por apenas 6 anos dentro das atividades da igreja. Ela foi uma amiga sensacional, me ensinou sobre empatia quando todas as crianças só pensavam em si mesmas. Débora estava a frente de todos.

  7. Li,minha amiga querida! Como sempre,vc é sempre muito querida e atenciosa. Achava muito lindo o seu tratamento com sua família. Respeitava a todos com maestria. Vc é incrível amiga. Tenho orgulho de vc. A Débora está bem. Deus está cuidando dela. Um bj grande e eu estou com saudade de vc.

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