Últimos dias de Celina

O texto a seguir foi escrito pelo meu avô paterno, Alípio, em 1974.

Chegamos a dois de julho de visita aos filhos Nahor, Ilnah e netos em Recife onde passamos cinquenta e cinco dias no aconchego de parentes e amigos; novos amigos que amamos tanto.

Conhecemos a região da grande Recife, irmãos presbiterianos, igrejas; em João Pessoa, Paraíba, outros irmãos.

Grandes bênçãos nos concedeu o Senhor.

De regresso permanecemos dez dias com nossos queridos irmãos Joaquim e Eclair Pereira Alves, no Rio.

Otimismo e alegria gozamos nesses dias, em visitas aos aprazíveis recantos da Guanabara, Niterói e encontros com os parentes e amigos.

Mas era preciso voltar.

Trazíamos um saldo de bênçãos maravilhosas, com muita saúde.

Celina reentrou em seus afazeres e trabalhos na Igreja, com dedicação e gozo.

A dez de julho participou de reunião da SAF¹ em Jaraguá do Sul. Dia vinte, almoço em família. À tarde, Jair nos levou até o alto do morro do Boa Vista. Dia vinte e seis e, três de agosto, estivemos em Barra do Sul, visitando a casa. Terça-feira, seis de agosto, à noite, sentiu-se gripada. Domingo, onze, dia do papai, reunião em família, participando Nahor, que a serviço, chegara de Recife, despedindo-se à noite.

Deus na sua providência estava preparando as suas despedidas, satisfazendo-lhe as suas últimas vontades e os sonhos.

Nada por realizar.

Dia treze de agosto, terça-feira, como fazíamos todas as tardes, Celina estudava sua Bíblia. A leitura era Jó capítulo dezenove. Chamou-lhe a atenção o versículo vinte e cinco. Argumentamos a certeza da Ressurreição daquele servo, em época tão distante do acontecimento.

Celina sentia-se feliz. Disse: descansaremos o resto deste ano fazendo visitas. Ano que vem assumiremos novos trabalhos. Disse-lhe: veja que já entramos no período da velhice. Pode ser que a qualquer momento um de nós seja chamado. Precisamos nos preparar. Ela afirmou: nós já estamos preparados. Somente quero ser chamada primeiro.

Dia catorze, pelas treze horas, ela sentiu forte dor. Deitou. Examinada logo, o médico recomendou internamento.

Fez o tratamento inicial com os enfermeiros, em casa, por falta de leito hospitalar. Onze horas da noite internou-se. Dia quinze, decidiu-se. Uma operação era a tentativa talvez possível.

Celina nos tranquiliza dizendo: Estou alegre porque vocês estão todos aqui. Continuem unidos. Nossa vida está segura em Jesus. Se tiver de viver, viverei. Se é a minha chamada, eu quero ir. Aceito de coração a operação. Saibam que eu vivi para vocês. Oramos. Ela decidiu ir já. O rev.² Caruso chegou. Orou.

Levamo-la para o gabinete cirúrgico.

À porta, com segurança, tranquila, forte aperto de mãos, ela despede-se: Alípio. Até a Ressurreição.

Apenas quarenta minutos.

Celina voltava ao quarto vinte e uma horas e vinte minutos.

Tudo parecia normalizar-se.

Entretanto, às vinte e três horas e vinte e cinco minutos, expirou.

Assim nos deixou, com a esperança e certeza da vida eterna.

TUDO RECEBEMOS. TÃO POUCO DAMOS.

“A quem honra, honra”. Rm 13:7

Teu esposo, Alípio.

Teus filhos: discrimina os nomes de filhos e cônjuges.

Teus netos: discrimina os nomes de netos.

Joinville, 20 de outubro de 1974.

¹ SAF = Sociedade Auxiliadora Feminina, da Igreja Presbiteriana.

² rev. = reverendo, pastor de Igreja.

Sentados: vó Celina e vô Alípio, rodeados por filhos, noras, genro e netos. Eu não era nascida.

Sabendo mais

Meu avô escreveu o texto acima para o culto de gratidão a Deus pela vida de sua esposa Celina. Nasci nove dias depois do falecimento de minha avó, em 24 de agosto. Encontrei esse escrito, após a partida de meu pai, em 2019, quando mexia em suas coisas. Nem preciso dizer que muito me emocionou e me fez refletir.

Uma das frases que meu pai contou era do vô Alípio: “Para morrer, basta estar vivo”. É assim o meu sentimento. Viva e pronta a morrer, passagem que espero e tenho a certeza disto: viver na glória de Deus.

Sim, procuro viver como se fosse o meu último dia, última hora, último momento. Carpe Diem! É curtir o momento de onde eu estiver. No trabalho, no ônibus, na loja, na clínica médica, em qualquer lugar. Sozinha ou em companhia. Ninguém sabe quando vai partir. Ainda bem! Um dos momentos que desfruto pra caramba é quando estou pedalando! Obrigada, Senhor!

Curtindo o amanhecer antes de chegar no trabalho em 23/08/2021. Foto: Luciana Vieira

Histórias de família

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Blog que compartilha a minha alegria em pedalar. Evidente que não há só alegria, porque sabemos muito bem que o nosso país não valoriza os ciclistas. Melhor dizer: não pensa em todas as pessoas como os pedestres, os cadeirantes e os idosos. Além das experiências de minha vida como ciclista, este espaço trata sobre outros temas, mesmo não tendo relação com a bike. Dou um alerta: o fato de gostar de pedalar não significa que sou especialista nessa temática. Aqui são histórias, opiniões, relatos, o que vier da minha mente e eu julgar interessante de contar. Na primeira postagem deste blog, convido a ler sobre o motivo de se chamar Aquela que pedala. Quem escreve? Sou a Luciana Vieira, tenho deficiência auditiva e moro em Florianópolis/SC. Atuo como assistente administrativa em empresa federal de energia elétrica e, desde 2013, procuro usar a bicicleta para me deslocar ao trabalho. Comunicação Social com habilitação em Jornalismo é a minha formação acadêmica e não exerço a profissão. Sempre gostei de escrever e já tive o prazer de dar uma de escritora em blogs de amigos como o Máquina de Letras. Mais segura em escrever e expor no meio virtual, decidi ter o meu próprio cantinho. E assim Aquela que pedala vem a ser a varanda de meus escritos. Sugestões, opiniões, críticas? Escreva para o e-mail aquelaquepedala@gmail.com

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