Não vai voltar ao normal

Pandemia. Coronavírus. Covid-19. Lockdown. Isolamento social. Fique em casa. Máscara. Distanciamento social. Vírus. Morte. Sem leitos. Não aguento essas palavras ressoando a todo instante. Dá vontade de tapar os ouvidos e fechar os olhos!  Ah, não vejo a hora de voltar à normalidade! Um dia, minha consciência gritou comigo: “Sério, Lu? Voltar ao normal?” Infelizmente, é normal o desrespeito, a corrupção, a falta de leitos em hospitais (problema já existente antes da pandemia), a destruição dos valores morais, o egoísmo, a inveja, o ódio ao próximo, os acidentes de trânsito, os cachorros e os gatos abandonados, a natureza sem cuidado, as drogas rolando soltas por aí… Não, não, isso não pode voltar ao normal!

A maldade sempre existiu na história da humanidade, mas a bondade deve prevalecer, não é mesmo? Então, quando a pandemia passar, não quero o retorno da normalidade. Desejo a todos uma vida melhor do que antes. Assim como hoje somos obrigados a usar máscara por decreto municipal/estadual, espero que haja a obrigação de acabar com a corrupção e as drogas, de valorizar a educação e os valores morais, de não haver falta de leitos e medicamentos, de investir em saúde e pesquisa, etc. Gostaria mesmo que não fosse uma obrigação, mas atitudes naturais do ser humano. Que fosse normal o homem querer o bem ao próximo, a harmonia, a paz, o amor e o respeito. Não basta desejar, mas praticar.

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Lindo amanhecer de ida ao trabalho em 16/07/2020. Foto: Luciana Vieira

Não me sinto bem em usar a máscara o tempo todo. A sensação é de levar tapa na cara e de alguém colocar a mão com lenço no meu rosto. Parece um “cale-se” forçado. Uso variados tipos de máscara e tenho a mesma sensação. Além disso, possuo surdez. Apesar de utilizar aparelhos auditivos, sempre fiz leitura labial. E as vozes das pessoas são abafadas pela máscara. Não consigo compreender as falas sem olhar os lábios. “Ah, Luciana, existem as máscaras transparentes.” Pois é…  Todos vão usar? Quem está pensando nas dificuldades dos deficientes auditivos?  Vivo com o forte desejo de logo acabar com a obrigatoriedade do uso da máscara.

Há outros cuidados importantes: ter boa higiene e evitar aglomeração de pessoas num mesmo espaço. Esses cuidados, em minha opinião, servem para a vida toda, não somente agora na pandemia.

Como as pessoas estão mais em casa, elas passaram a acessar bastante as redes sociais, principalmente produzindo vídeos. No teletrabalho, são videoconferências, webinars, lives, etc. Então, faço um apelo aqui. Escrevam também, pois adoro e prefiro ler! Escutar sempre me exigiu muito esforço em função da minha deficiência auditiva. Seria tão bom se todos os vídeos fossem legendados!

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Ida ao trabalho em 17/07/2020. Foto: Luciana Vieira
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Parte do belo jardim da empresa onde trabalho em 20/07/2020. Foto: Luciana Vieira
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Amanhecer com muito nevoeiro em 21/07/2020. Não deu para ver o mar. Foto: Luciana Vieira

A pandemia também tem me mostrado que as pessoas possuem muito medo da morte. Elas estão apavoradas, assustadas, desesperadas. É preciso parar de encarar a morte de modo sombrio. Falar dela deveria ser um assunto normal como a relação sexual, por exemplo, que antes era tabu, tema proibido em conversas. Procuro enfrentar bem a vida, mesmo nas situações mais difíceis, e enxergo a morte de forma natural. Eu creio que verei a face de Deus quando morrer. Acredito piamente que não terei mais sofrimento, porque Jesus, o filho de Deus, pagou pelos nossos pecados e nos serve de modelo como homem. Então, a morte, para mim, é esperada, mesmo sendo sofrida. “Puxa, Lu, você é amiga da morte, hein!” Não, sou amiga da vida. A morte é apenas uma passagem a uma vida melhor. Enquanto estou na Terra, não fico de braços cruzados. Vivo da melhor maneira possível e ofereço o que é bom aos outros. Estou aqui para moldar o meu ser e aprender. Vida e morte. Enquanto são classificadas como antônimas, eu vejo essas duas palavras como sinônimas.

Importante: não deixe o tema da pandemia tornar-se o centro da sua vida. Há muitas coisas boas acontecendo que estão passando despercebidas. Também existem as ruins sendo ignoradas; o coronavírus não é a única coisa negativa em nossa volta.

Uma das coisas boas que faço é pedalar e espero estar servindo de bom exemplo aos outros. Então, vivo pedalando por aí, de máscara. Não vejo a hora tirá-la!

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A lua ainda aparecia no belo amanhecer de 05/08/2020. Foto: Luciana Vieira
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Retorno para casa diante de um maravilhoso entardecer em 10/08/2020. Foto: Luciana Vieira

 

Sabendo mais

Atenção, ciclistas! O artigo 58, do Código de Trânsito Brasileiro, diz que:

Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores. (grifo meu)

Devemos pedalar no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via! Andar de bicicleta na contramão é suicídio! Por exemplo: ao sair de uma garagem ou num cruzamento, os motoristas olham os veículos que vêm no mesmo sentido da via e não esperam um veículo na contramão. Da mesma forma, acontece com o pedestre ao atravessar uma rua.

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A internet mostra vários sites indicando que não é recomendável pedalar na contramão.

Há 11 motivos para não pedalar na contramão e copio alguns trechos do texto escrito por Willian Cruz para o site Vá de Bike.

1) Não é mais rápido: Ao contrário da crença popular, ciclistas que se integram ao fluxo normal de veículos chegam mais depressa ao destino. Quando você entra na contramão, tem que parar ou diminuir o ritmo a todo instante (pelos motivos expostos nos itens abaixo);

2) Não é mais seguro: A maneira mais segura de pedalar no trânsito é fazer parte dele. De acordo com estudos científicos sobre colisões, ciclistas que pedalam na mão correta têm cerca de cinco vezes menos chances de colisão, comparados aos que fazem suas próprias regras em vez de se integrar às que já valem aos demais veículos;

3) Não há tempo de reação: Na contramão, você tem a sensação psicológica de que está mantendo a situação sob controle, quando na verdade não está. Se você vê um carro desgovernado vindo na sua direção, não dá tempo de desviar, principalmente porque suas velocidades estarão potencializadas: a velocidade com a qual o carro se aproxima de você é a sua somada à dele. Um carro a 60 km/h com você a 20 km/h estará se aproximando de você a uma velocidade relativa de 80 km/h. Se vocês estivessem na mesma direção, ele chegaria a você com metade dessa velocidade, 40 km/h. Com o bom uso de um espelho retrovisor e de seus ouvidos, você tem o dobro do tempo de reação. O motorista também terá esse tempo e é mais importante ele desviar de você do que você dele, porque quem conduz o carro é quem realmente pode evitar o atropelamento. Você não consegue jogar sua bicicleta cinco metros para o lado em um segundo, mas o motorista pode fazer isso com seu carro se houver tempo suficiente;

4) É mais difícil evitar o atropelamento: Andar na contramão é chegar nos carros mais depressa. Trafegando em direções opostas, tanto você como o motorista precisam parar totalmente para evitar uma colisão frontal. Trafegando no mesmo sentido, o motorista precisa apenas diminuir a velocidade para abaixo da sua para evitar o atropelamento, tendo ainda muito mais tempo para reagir e uma margem bem maior;

5) Em caso de atropelamento, os danos ao seu corpo serão bem maiores: Pelo mesmo motivo do item anterior (soma de velocidades), se você bater de frente com um carro vai sofrer muito mais. E ainda há um agravante: a inércia. Se você está indo no mesmo sentido do carro, ele vai pegar primeiro sua roda traseira e você sairá voando por cima do guidão, devido à inércia (com a roda de trás da bicicleta agarrada pelo carro, você continuará seu movimento anterior) ou devido à transmissão de energia cinética (o carro colide com a bicicleta e transfere parte de seu movimento para ela e consequentemente para seu corpo, impulsionando ambos adiante, com a bicicleta começando a parar uma fração de segundo depois porque a roda de trás não gira mais e seu corpo saindo para a frente com o movimento transferido). Melhor voar por cima da bicicleta em direção ao asfalto livre e estacionário do que se chocar com um para-brisa ou capô, que além de estarem a um metro de você no momento da colisão ainda vêm em sua direção com velocidade e força de impacto;

6) Você surpreende os carros: Como você chega mais rápido nos carros, você os pega de surpresa. Principalmente em curvas à direita: o motorista está fazendo a curva quando de repente aparece você vindo na direção dele. Não há tempo de reação. Ele não consegue frear, não pode ir para a esquerda porque há outros carros, na direita tem um carro parado ou a calçada. Você também não pode se jogar para a calçada se há carros parados e, mesmo que não haja, não dá tempo nem de pensar nisso. Se vocês estivessem no mesmo sentido, o motorista teria bem mais tempo para reagir, talvez até o dobro, e poderia apenas diminuir a velocidade para evitar a colisão. Um carro não estanca imediatamente, mesmo que o motorista queira, se esforce e tenha um freio ABS com pneus bons;

7) Os motoristas não te vêem nos cruzamentos: Quando um carro vira num cruzamento, o motorista olha apenas para o lado do qual os carros vêm. Imagine um carro entrando numa avenida: o condutor olha para a esquerda; se não vem carro, ele entra. Nisso você está chegando com sua bicicleta na contramão e ele te pega de frente. Não tem buzininha, grito, agilidade ou terço pendurado no guidão que resolva isso;

8) Os motoristas não te vêem ao sair das vagas e garagens: Ao sair de uma vaga em que está estacionado, o motorista olha para trás, seja pelos espelhos ou pela janela, para ver se há veículos vindo. O mesmo ocorre quando ele sai de uma garagem de prédio ou de um estacionamento. Ele não olha para a frente, afinal não vêm carros daquela direção. Você, vindo na direção do carro, nem sempre verá que o motorista vai sair da vaga e, quando vir, talvez não adiante mais frear. Ao sair, ele vai te pegar de frente, mesmo que você consiga parar totalmente a bicicleta a tempo;

9) Os motoristas não te vêem ao abrir as portas dos carros: Se muitos já não olham pelo espelho para abrir a porta do carro e ainda culpam o ciclista por isso, imagine se vão olhar para a frente para ver se vem vindo uma bicicleta. A chance de levar uma portada é muito maior;

10) Os pedestres não te vêem: Quando um pedestre vai atravessar a rua, ele olha para o lado do qual os carros vêm. Preste atenção no seu próprio comportamento na próxima vez que for atravessar uma avenida a pé e perceberá como isso é verdade. Por isso, pode acontecer de alguém cruzar a rua do nada na frente da sua bicicleta, saindo do meio dos carros, de costas para você. E não vai dar tempo para fazer nada;

11) Se quer ser tratado como veículo, porte-se como um: Se você se comporta como um veículo, sinalizando suas intenções, respeitando mãos de direção, sinais de tráfego, faixas de pedestre e etc., os motoristas o respeitarão mais. “Se aquele cara se preocupa com tudo isso, não é um mané qualquer que está aqui só atrapalhando”. Se, por outro lado, você anda na contramão, você os incomoda. Sim, isso irrita muitos motoristas, que ficam com a sensação de que você está adotando uma atitude de confrontamento, de negação de regras, de desrespeito. Passar em todos os sinais e outras pequenas infrações também os irritam, geralmente pela sensação de injustiça (“poxa, aquilo é proibido mas só porque ele tá de bicicleta ele pode fazer e eu não?”). Seja um modelo a ser espelhado e não um alvo da raiva e frustração alheias.

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Pedalando no sentido da vida em 14/08/2020. Foto: Luciana Vieira

 

Reflexões

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Blog que compartilha a minha alegria em pedalar. Evidente que não há só alegria, porque sabemos muito bem que o nosso país não valoriza os ciclistas. Melhor dizer: não pensa em todas as pessoas como os pedestres, os cadeirantes e os idosos. Além das experiências de minha vida como ciclista, este espaço trata sobre outros temas, mesmo não tendo relação com a bike. Dou um alerta: o fato de gostar de pedalar não significa que sou especialista nessa temática. Aqui são histórias, opiniões, relatos, o que vier da minha mente e eu julgar interessante de contar. Na primeira postagem deste blog, convido a ler sobre o motivo de se chamar Aquela que pedala. Quem escreve? Sou a Luciana Vieira, tenho deficiência auditiva e moro em Florianópolis/SC. Atuo como assistente administrativa em empresa federal de energia elétrica e, desde 2013, procuro usar a bicicleta para me deslocar ao trabalho. Comunicação Social com habilitação em Jornalismo é a minha formação acadêmica e não exerço a profissão. Sempre gostei de escrever e já tive o prazer de dar uma de escritora em blogs de amigos como o Máquina de Letras. Mais segura em escrever e expor no meio virtual, decidi ter o meu próprio cantinho. E assim Aquela que pedala vem a ser a varanda de meus escritos. Sugestões, opiniões, críticas? Escreva para o e-mail aquelaquepedala@gmail.com

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