Amor à vida de bike

Dias atrás vinha refletindo sobre a importância da bicicleta em minha vida e, para meu espanto, já é o sexto ano que a transformei no meu principal meio de transporte. Seis anos indo de bike ao trabalho! O tempo passa rápido demais! Aí me dei conta de que tenho inúmeras histórias com ela e não é a toa que existe este blog. Quantos aprendizados! Minha vida de motorista estressada e presa no trânsito caótico pertence ao passado. Tive muitos ganhos com a bicicleta: disposição para trabalhar, colocar os pensamentos em ordem, amigos novos que conheci em grupos de pedais, explorar lugares desconhecidos, incluindo cada pedaço escondido da cidade onde moro, contemplar os espetáculos da natureza como o amanhecer e o entardecer… São tantas coisas boas que a bike me proporciona!

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Entardecer espetacular! Foto: Luciana Vieira
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Uma das belas surpresas encontradas pelo caminho. Foto: Luciana Vieira
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A felicidade de pedalar em grupo. Foto: Vinícius Leyser da Rosa

Em Joinville, gostava muito de ver os operários de indústrias saindo do serviço de bicicleta.  Talvez nessas ocasiões uma semente já germinava em meu ser – um dia eu faria a mesma coisa. Eram bicicletas do tipo barra forte e os operários saíam da fábrica todos juntos em seus uniformes azuis. Quando chovia, muitos seguravam guarda-chuvas pretos. Ainda hoje as do tipo barra forte são as mais comuns em Joinville, terra plana que já foi considerada a “Cidade das Bicicletas”. Porém, hoje o carro domina o trânsito como em outros municípios do Brasil.

Sempre quis aprender a dirigir um automóvel e, com 18 anos de idade, obtive a minha carteira de motorista. Com o passar dos anos, o trânsito só piorava. Excesso de veículos nas ruas e motoristas desrespeitosos me fizeram perder tempo de vida. Eu me sentia muito mal e precisava de liberdade. Já considerava a bicicleta como solução para melhorar a minha qualidade de vida. Vontade eu tinha, coragem não. O meu sonho de primeiro emprego era ser carteira dos Correios só por causa do uso da magrela. Somente consegui derrotar o medo no meu terceiro emprego, em Florianópolis. Veja aqui neste blog a minha experiência de ir de bicicleta ao trabalho.

A bike tem tanta presença em minha vida que parece ser a extensão do meu corpo. É tão presente que costumo dar nome a elas: Serena, por me deixar calma e tranquila; Flora, em homenagem à Florianópolis, cidade por onde mais pedalei em toda a minha existência; Urian, em homenagem à Urubici, cidade amada de tantos encantos naturais. Hoje tenho somente a Urian. A paixão avalassadora de querer sempre mais uma bike se transformou em amor maduro. Uma bike é suficiente. Quando caí em Urubici (relato aqui) e fiquei um tempo sem pedalar, resolvi andar até o serviço como forma de não sofrer tanto com a saudade da bicicleta. Várias vezes entrei na ciclovia próxima ao local do trabalho caminhando. “Luciana do céu! Você está andando no lugar errado! Não está pedalando!” Aí ia para a calçada. Cair da bike em Urubici foi uma lição dura para mim, pois não sabia que ficar sem utilizar um dos aparelhos auditivos prejudicaria o meu desempenho durante a pedalada.  Afinal, som é equilíbrio. Bicicleta depende de equilíbrio, tanto fisicamente quanto mentalmente.

Equilíbrio? Essa palavra diz muito! Quantas vezes lágrimas diminuíram durante a pedalada? Quantas vezes ideias surgiram enquanto eu pedalava? Minhas melhores “eurekas” foram em dois momentos: debaixo do chuveiro e em cima da bike! Quantas vezes as minhas preocupações foram aliviadas? Quantas vezes conversei com o meu bondoso Deus? Quantas vezes a preguiça sumiu? Quantas vezes terminei o pedal com o sorriso no rosto? Só a bike mesmo para me dar o equilíbrio necessário na minha vida. É uma das melhores invenções da humanidade!

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Bike Serena. Foto: Luciana Vieira
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Subindo o Morro da Lagoa com a bike Flora. Foto: Vinícius Leyser da Rosa
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Bike Urian. Foto: Luciana Vieira

Pedalando ao trabalho, observo mais o que está ao meu redor. Cruzo com muitos rostos conhecidos pelo caminho. Outros tantos não sei o nome. Mesmo assim, nos cumprimentamos com “bom dia” ou com um gesto da mão de “oi”. Este ano percebi, com tristeza, o aumento de sujeiras nas ciclovias e nas ruas por onde pedalo. Frequentemente encontro os funcionários da Comcap limpando as vias e não é por isso que podemos sujá-las à vontade. O que mais vejo são bitucas de cigarros, vidros quebrados e plásticos.  Quem larga isso no chão não pode reclamar das enchentes na cidade, não é mesmo? Ainda há aquelas sujeiras que são resultado das batidas de veículos em postes de energia elétrica, semáfaros e placas de sinalização de trânsito ao longo das ciclovias. Seis anos pedalando até o trabalho! Quando não dá, uso o ônibus. Quantas vezes, principalmente em dias ensolarados, eu fiquei olhando da janela do veículo e pensando: “Queria estar pedalando… Snif!” Opa! Algumas palavras atrás, falei das sujeiras… Teve um dia do final do ano passado que peguei ônibus no fim da tarde. Estava muito cansada e quase adormecendo no banco. De repente, uma mulher jogou um copo plástico com colher da janela do ônibus. Fiquei atordoada! Logo constatei que havia duas lixeiras dentro do veículo. Quase me levantei para falar muito braba com a mulher. “Calma, Luciana! Você não sabe como ela vai reagir. E se ela bater em você?” Só de ver a atitude dela, eu me senti mais cansada e decepcionada com a humanidade. Já chamei a atenção das pessoas jogando coisas nas ruas, mas nesse dia acho que meus neurônios queimaram.

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Barbaridades do trânsito. Foto: Luciana Vieira

Por que tantos automóveis por aí? Além do conforto e do “status social”, penso que as pessoas usam o veículo para chegar mais rápido ao destino. Porém, hoje em dia poucas oferecem carona. O mundo está mais egoísta, sendo cada um por si e olhando o seu umbigo. Muitos veículos com apenas o motorista ou, no máximo, com mais uma pessoa. Outra coisa comum: cada membro da família tem o seu carro. Muitos países da Europa já mostraram que o automóvel não é a única e a melhor opção de deslocamento. Já tiveram problemas com trânsito congestionado e apresentaram soluções e melhorias. E uma delas é o uso da bicicleta. O Brasil está tão atrasado… Não aprendeu ainda com a lição dos outros países.

Apesar de tantos carros, percebo o aumento do número de pessoas usando a bicicleta. Em especial, mais mulheres pedalando sozinha. Fico feliz quando cruzo com uma fazendo a mesma coisa que eu. “É isso aí, garota!” Quanto às condições urbanas, quase nada mudou. Não aumentou o número de ciclovias ou ciclofaixas. As obras que contemplavam uma ciclovia na rua onde trabalho estão abandonadas. Serviços relativos às aberturas de ruas, construções de elevados e viadutos, alargamentos de pistas para veículos, não incluem a ciclovia, apesar de constar na legislação. A falta de respeito ao Código de Trânsito Brasileiro continua… Ainda levo finas dos motoristas. Corredores invadem a ciclovia de repente. Ciclistas na contramão da rua. Hoje Florianópolis conta com aluguel de bicicletas e patinetes. Muito bom! Mas… O problema são as pessoas. Levei tantos sustos de pessoas usando patinetes sem respeitar as regras de trânsito. Recentemente, precisei gritar para uma moça de patinete na pista contrária da ciclovia e ainda usava fones de ouvido. Aí está mais um alerta: não use fones de ouvido! A percepção auditiva fica muito limitada e podemos não perceber a aproximação de veículos ou avisos de alguma pessoa. Deseja escutar música? Use o som do celular ou daquelas caixinhas de som JBL. Esse aviso é para todas as pessoas que estão em trânsito, seja qual for o seu meio de transporte.

Sim, o mundo é imperfeito. No entanto, deveria existir mais esforço por um mundo melhor. Melhorar deveria ser uma atitude constante. A esperança ainda mora em mim… Uma situação positiva é a Via Amiga, aos domingos, em Florianópolis. Uma pista da beira-mar norte fica fechada para os veículos motorizados e se torna exclusiva aos treinos de ciclismo e aos outros esportes como skate e patinação. No bairro Coqueiros, uma pista da rua principal também é liberada somente a essas práticas esportivas. Outro ponto positivo são as condenações recentes de motoristas bêbados que mataram dois ciclistas, um em 2008 e outro no final do ano de 2015. Ainda precisamos de uma legislação dura que penalize severamente os infratores.

Mais uma coisa boa foi o uso da bicicleta em Florianópolis durante as eleições do segundo turno para prefeito em 2016 e as do primeiro e segundo turno em 2018 de diversos cargos públicos como o de Presidente da República. Fui voluntária para buscar as mídias nos locais de votação e levá-las até à Justiça Eleitoral, onde ocorreu a apuração dos votos. A bike provou ser uma excelente opção de transporte em trajetos curtos e todos os ciclistas voluntários cumpriram perfeitamente o seu dever cívico. Em 2018, além dos ciclistas, dois corredores voluntários também participaram da ação. Eu me senti muito honrada nessa atividade cívica e estou à disposição para fazer isso de novo. Que mais cidades brasileiras adotem a bicicleta nas próximas eleições.

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A honra de trabalhar nas eleições de bike.

Eu me sinto tão feliz quando me chamam para falar sobre ela. “Você pedalou no fim de semana?” “Vi você pedalando em…” “Quero comprar uma bike!” “Que tipo de bike você recomenda para eu começar a pedalar?” Até desconhecidos me abordam na rua quando estou com a magrela. Motoristas já me perguntaram como chegar a tal lugar. Uma motorista pediu socorro para mim quando o carro dela estragou a caminho da ponte em via rápida. Uma pedestre perguntou se eu era professora de Educação Física. Um casal me perguntou onde compro as vestimentas de bike. Quem me conhece, sabe que meus olhos brilham quando o assunto é bicicleta. Enquanto eu tiver saúde, sigo pedalando. Se um dia ficar sem braço, quero pedalar. Se um dia ficar sem perna, quero pedalar. Lembre-se que existe triciclo, handbike e bicicletas acopladas. Se um dia ficar cega, quero pedalar atrás do ciclista que vê. Se eu ficar sem movimento, me leve na garupa. Se eu perder a memória, me mostre este blog. Viva aos meus seis anos indo de bike ao trabalho! Não há como esquecer o dia 18 de fevereiro de 2013. Como amo pedalar!

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Festa do fim do dia! Foto: Luciana Vieira

Reflexões

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Blog que compartilha a minha alegria em pedalar. Evidente que não há só alegria, porque sabemos muito bem que o nosso país não valoriza os ciclistas. Melhor dizer: não pensa em todas as pessoas como os pedestres, os cadeirantes e os idosos. Além das experiências de minha vida como ciclista, este espaço trata sobre outros temas, mesmo não tendo relação com a bike. Dou um alerta: o fato de gostar de pedalar não significa que sou especialista nessa temática. Aqui são histórias, opiniões, relatos, o que vier da minha mente e eu julgar interessante de contar. Na primeira postagem deste blog, convido a ler sobre o motivo de se chamar Aquela que pedala. Quem escreve? Sou a Luciana Vieira, tenho deficiência auditiva e moro em Florianópolis/SC. Atuo como assistente administrativa em empresa federal de energia elétrica e, desde 2013, procuro usar a bicicleta para me deslocar ao trabalho. Comunicação Social com habilitação em Jornalismo é a minha formação acadêmica e não exerço a profissão. Sempre gostei de escrever e já tive o prazer de dar uma de escritora em blogs de amigos como o Máquina de Letras. Mais segura em escrever e expor no meio virtual, decidi ter o meu próprio cantinho. E assim Aquela que pedala vem a ser a varanda de meus escritos. Sugestões, opiniões, críticas? Escreva para o e-mail aquelaquepedala@gmail.com

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