Na parte alta do Vale Europeu

Pensei em fazer sozinha o circuito completo do Vale Europeu. Muitas pessoas não me aconselharam a pedalar sozinha por conta da falta de educação no trânsito e da violência. Elas disseram: “Se você fizer na Europa, aí tudo bem. Lá existe muito respeito ao ciclista.” Três amigos se interessaram em ir comigo no Vale Europeu. Então, durante as férias de julho deste ano, pesquisei preços de hospedagem e estudei as rotas. Por vários motivos, o plano foi abortado.

A terrível notícia de violência sofrida pelo casal de ciclistas franceses que fazia uma cicloviagem pela América Latina derrubou definitivamente a ideia de fazer sozinha. Quando chegou a cidade de Palhoça em outubro deste ano, o casal teve todos os seus pertences roubados, incluindo as bicicletas. Os bandidos ainda agrediram o rapaz e estupraram a moça. Esse triste acontecimento chocou os ciclistas da Grande Florianópolis e muitos ajudaram o casal francês. Infelizmente, até hoje não se descobriu os culpados. Felizmente, o casal pode continuar viajando de bicicleta.

O outro motivo que também tirou o meu desejo de ir sozinha é a constatação de como me faz muito bem pedalar por aí com amigos. Muito bom ter companhia! Um ajuda o outro. Um estimula o outro. Temos mais segurança e estamos juntos para o que pode surgir pela frente.

Em fevereiro de 2016, tive a felicidade de conhecer ciclistas de Balneário Camboriú no pedal pelo sul da ilha, em Florianópolis. No post Na parte baixa do Vale Europeu disse que muitas vezes a concretização de meus sonhos se sai muito melhor do que eu imaginava e planejava. Soube da oportunidade de pedalar com eles na parte alta do Vale Europeu! E fui com eles!

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Como é bom pedalar em grupo! Em frente à Pousada LindnerHof, em Altos Cedros. Foto: Marisa Terezinha Pereira

Assim, na tarde do dia 11 de novembro, uma sexta-feira, estava me deslocando de carro de Florianópolis a Balneário Camboriú com o meu amigo Marcos de Oliveira. Em Balneário, encontramos os ciclistas dessa cidade e fomos de van até o município de Rodeio. Durante a viagem, houve informes e comemoração por estarmos juntos no novo desafio. Pegamos muito trânsito e quase tiramos as bicicletas da van para ir pedalando até Rodeio… Paramos no caminho para um delicioso lanche. Chegamos de noite em Rodeio e jantamos no restaurante em frente ao Cama Café Stolf, local de nosso pernoite. No dia seguinte, em 12 de novembro, após um saboroso café da manhã e antes de iniciar o pedal, dei uma voltinha pela cidade de bicicleta. Ah, uma graça! E com ciclofaixas! Logo começamos a pedalar com destino à Doutor Pedrinho.

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Ciclofaixa em Rodeio, uma maravilha para pedalar! Foto: Luciana Vieira

Sabíamos que por ser a parte alta do Vale Europeu, o pedal não seria fácil por envolver muitas subidas. Isso requer muito preparo físico e psicológico. Não demorou para aparecer o grande desafio do dia: subida de 8 km! O clima estava agradável, a estrada tinha a sombra da mata lindíssima e… Luluzinha conseguiu pedalar sem empurrar a bike! No meio da subida, a estrada fica quase plana… É uma parada estratégica para relaxar o corpo, ufa! Essa parte da estrada é conhecida como Caminho dos Anjos. O site da Prefeitura de Rodeio informa que as estátuas de anjos e do Cristo Redentor foram feitas por um agricultor que buscou na Bíblia as forças para se recuperar de uma doença.

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Caminhos dos Anjos, na região de Rodeio. Foto: Luciana Vieira
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Felizes pela conclusão de 8 km de subida!

Depois dos 8 km de subida, pegamos trechos planos, mas ainda encaramos mais alturas, quase sempre ao lado de um rio. Há muitas cachoeiras pelo caminho e paramos no Big Mountain Adventure Park que oferece atividades como a tirolesa a fim de nos relaxarmos. Quando passamos pela cidade de Benedito Novo, conhecemos de perto a Igreja Luterana Ribeirão Liberdade em estilo enxaimel. Pegamos chuva fina (não chovia o tempo todo) e chegamos a Doutor Pedrinho. Em vez de irmos logo para a pousada, eu e um grupo de amigos resolvemos tomar café numa confeitaria. Depois fomos à Bella Pousada, onde tivemos uma saborosa janta. O meu “Strava”, aplicativo do celular que registra o trajeto, a altimetria e a velocidade de minha pedalada, apontou 49,2 km com altimetria total de 1.580 metros, de Rodeio a Doutor Pedrinho.

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No La Cafeteria, antes de ir para a Bella Pousada, em Doutor Pedrinho. Foto: Luciana Vieira

O segundo dia, em 13 de novembro, amanheceu com chuva fina e um pouco de frio. O destino era ir até Altos Cedros, da cidade de Rio dos Cedros. Como estávamos em estrada de terra envolvida com mata, não sentia se a chuva aumentava ou não. No entanto, o chão estava muito molhado. Assim, os pneus de nossas bicicletas ficaram com barros, tornando o pedal mais pesado. Havia muitas subidas e… Luluzinha conseguiu subir sem empurrar a bike! Viva! Todos os dias parávamos em algum trecho a fim de lanchar e reagrupar o pessoal. Em um determinado trecho, enquanto aguardávamos a chegada de todos os amigos, resolvi pedalar numa estrada lateral. Peguei muito barro e fui até onde dava para ir. Quando estávamos chegando à região de Altos Cedros, já não tinha mais a chuva fina. Ah, aí está a Pousada LindnerHof! Com cachoeira ao seu lado! Um espetáculo de lugar! Como a bicicleta estava muito suja, tratei logo de lavá-la antes de entrar na pousada. O meu “Strava” registrou 42,6 km de Doutor Pedrinho a Altos Cedros com 1.267 metros de altimetria. Tivemos lanche e jantar deliciosos, sempre na companhia agradável e divertida dos amigos ciclistas. Durante o jantar, a Cirlei, que caiu da bicicleta sem se machucar muito e conseguiu continuar a pedalar (graças a Deus!), fez uma linda explanação da experiência do dia.

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Pedalando na lama! Foto: Marcos de Oliveira
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Hortênsias pelo caminho! Foto: Marcos de Oliveira
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Boas companhias e papos divertidos! Foto: Marisa Terezinha Pereira

O terceiro dia, em 14 de novembro, começou nublado e, depois do café da manhã de delícias, estávamos todos dispostos de ir até a região de Palmeiras. Considerei o percurso como o mais fácil de todos os dias de pedal, pois as subidas não foram tão altas e tinha muitos trechos planos. Também foi o trajeto que considerei como o mais isolado, pois havia poucas edificações pelo caminho. Em determinada parte do passeio, entramos em propriedade particular para curtir de perto a Cachoeira Formosa. No período da tarde, o sol apareceu e pedalamos ao lado de uma linda e imensa represa. Chegamos ao Cama Café Vitorino, local de nossa hospedagem, de frente à represa! Uma maravilha de olhar! O meu “Strava” gravou 38,4 km de pedal com 1.075 metros de altimetria e lavei logo a minha bicicleta. O lugar onde pernoitamos era o mais simples de todos os dias, pois os três banheiros eram compartilhados por todos nós que éramos um grupo de cerca de 20 pessoas. Como terminamos o pedal no meio da tarde, foi possível nos acomodarmos com tranquilidade. Com o tempo mais livre, alguns foram passear a pé pelas redondezas da região e outros brincaram com jogos de carta como o “mau mau”. A nossa estada foi muito boa com café da tarde, janta e café da manhã recheado de delícias.

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As vacas gostam de ciclistas! Foto: Marcos de Oliveira
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Trecho sem civilização. Maravilhoso de contemplar a natureza! Foto: Família Moreira
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Subida concluída! Foto: Família Moreira
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Pausa na Cachoeira Formosa. A alegria do burro de estar com a gente! Foto: Luciana Vieira
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Subida para chegar no Cama Café Vitorino. Olha a represa ao fundo! Foto: Família Moreira
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Eu gosto de lavar a minha bici! Foto: Marcos de Oliveira

O sol apareceu entre as nuvens no quarto e último dia de pedal (ah, já…), em 15 de novembro. Quando estávamos saindo para pedalar, o tempo ficou chuvoso. Considerei o percurso desse último dia como o mais difícil de todo o circuito por causa de uma subida de 2 km muito inclinada. Estava determinada a vencer esse morro. Porém, antes dessa subida houve um trecho bem longo de descida. Uau! Deu aquele frio na barriga! Por causa da chuva, a estrada estava escorregadia. Todos nós fomos alertados de descer com muito cuidado pela Carol, nossa guia. Era descida que nunca chegava ao fim! Como não gosto de descer devagar, fiz isso em alta velocidade, mas prestando muita atenção durante o trajeto. Usei muito o meu corpo como freio para não exigir o uso direto dos freios da bicicleta. Quando essa descida terminou, fiquei exausta e feliz por concluí-la sem incidentes. Todos estavam cobertos de lama! Depois de uma pausa para descanso, continuamos o passeio e logo chegamos à temível subida inclinada de 2 km, localizada no Rio Cunha. Durante uma parte da subida, quase caí da magrela. Por causa da quase queda, tive que parar a bike. “Ai, que inclinação!” Não conseguia recomeçar o pedal a partir dali. A amiga Fatima se ofereceu para me segurar e depois me soltar. Resolvi recomeçar no ponto de onde havia mais largura da estrada e segurança. Enquanto descia empurrando a bike, muitos ciclistas me perguntaram se eu estava bem e o que houve comigo. Expliquei a eles que eu iria recomeçar a subida. Recomecei, passei do ponto de onde quase caí da bicicleta e continuei com muito esforço. A estrada de terra era mais estreita e passou um veículo que me deixou nervosa. O motorista passou com cuidado, mas não consegui me tranquilizar. “Será que vai passar mais veículos?” Apenas passaram mais uns dois veículos e os motoristas também me ultrapassaram com cuidado. “Não aguento mais, preciso parar!”. Passei a empurrar a magrela pela primeira vez dos quatro dias de pedal. Caminhei um pouco e voltei a pedalar. Subi mais um pedaço. Parei de novo e empurrei a bike. Voltei a pedalar de novo até terminar a subida. Não foi fácil. O mais importante é que todos nós terminamos bem! Mas… Luluzinha quer vencer esse morro em outra oportunidade! Morro do Rio Cunha, me aguarde!

Após essa subida inclinada de 2 km, fizemos uma pausa para relaxar. Continuamos o pedal em trechos mais tranquilos até chegar à cidade de Timbó. Avistamos a placa de “Final” do circuito no centro de Timbó… Que emoção! Muita comemoração! O meu “Strava” mostrou 55,4 km de Palmeiras a Timbó com 1.153 metros de altimetria. Como estávamos sujos de lama, tomamos banho no Timbó Park Hotel. Com todos limpinhos e cheirosos, fomos almoçar no Restaurante Thaphyoca. Hora de retornar as nossas cidades. Na van, todos estavam felizes pela empreitada e já falando do próximo pedal: o circuito Costa Verde & Mar. Também aqui em Santa Catarina!

Cheguei a minha casa muito feliz e agradecendo a Deus pelos quatro dias de pedal. No ano passado, fiz a parte baixa do Vale Europeu e em nenhum momento empurrei a bicicleta. Na parte alta, empurrei somente no último dia do circuito. Uma grande vitória em minha vida! Só Deus mesmo para me dar persistência e resistência, e colocar as pessoas certas em minha vida! Ah, desejo pedalar de novo no Vale Europeu… Mais vezes por lá e com amigos!

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Feliz por concluir uma longa descida. Lama faz bem para a pele e a alma!
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Pedalando no asfalto e quase chegando em Timbó. Foto: Marisa Teresinha Pereira
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Parando um pouco para contemplar Timbó. Lama até na cabeça! Foto: Luciana Vieira
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Cheguei! E voltarei! Foto: Luciane Moratelli

Vale Europeu

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Blog que compartilha a minha alegria em pedalar. Evidente que não há só alegria, porque sabemos muito bem que o nosso país não valoriza os ciclistas. Melhor dizer: não pensa em todas as pessoas como os pedestres, os cadeirantes e os idosos. Além das experiências de minha vida como ciclista, este espaço trata sobre outros temas, mesmo não tendo relação com a bike. Dou um alerta: o fato de gostar de pedalar não significa que sou especialista nessa temática. Aqui são histórias, opiniões, relatos, o que vier da minha mente e eu julgar interessante de contar. Na primeira postagem deste blog, convido a ler sobre o motivo de se chamar Aquela que pedala. Quem escreve? Sou a Luciana Vieira, tenho deficiência auditiva e moro em Florianópolis/SC. Atuo como assistente administrativa em empresa federal de energia elétrica e, desde 2013, procuro usar a bicicleta para me deslocar ao trabalho. Comunicação Social com habilitação em Jornalismo é a minha formação acadêmica e não exerço a profissão. Sempre gostei de escrever e já tive o prazer de dar uma de escritora em blogs de amigos como o Máquina de Letras. Mais segura em escrever e expor no meio virtual, decidi ter o meu próprio cantinho. E assim Aquela que pedala vem a ser a varanda de meus escritos. Sugestões, opiniões, críticas? Escreva para o e-mail aquelaquepedala@gmail.com

2 comentários Deixe um comentário

  1. Lu, amo seus diários, seus posts, suas aventuras de bike! Delicio-me com essas leituras. Pedalei com você, só que de forma virtual!!! Beijos.

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