“Isso não vai acontecer comigo”

Essa frase do título faz parte dos seus mantras? Ouço muito isso das pessoas. Não gosto dela.

– Cuidado, você está bêbado e não deve dirigir. Pode provocar um acidente!

– Isso não vai acontecer comigo.

– Não se esqueça de usar camisinha. Você é muito nova para engravidar!

– Isso não vai acontecer comigo.

– Você está gastando muito dinheiro. Assim, vai perder a casa!

– Isso não vai acontecer comigo.

– Cuide de sua esposa! Ela precisa de sua atenção e carinho. Você está só ligado no trabalho e ela pode se separar de você.

– Isso não vai acontecer comigo.

– Puxa, a vida daquela moça que ficou tetraplégica não é fácil… Você usa o celular enquanto está dirigindo e veja o que aconteceu com ela… Não faça mais isso!

– Isso não vai acontecer comigo.

– Não use muito o celular na rua, filha! Há muitos bandidos roubando celular das mãos das pessoas. Cuidado, filha!

– Isso não vai acontecer comigo.

– Lu, tome cuidado quando você pedala na rua! Há muitos motoristas irresponsáveis que não respeitam o ciclista, principalmente os bêbados.

– Isso pode acontecer comigo.

Sim, tenho consciência de que algo ruim pode acontecer comigo. Não vou deixar de pedalar por causa dos motoristas irresponsáveis, da falta de ciclovias, dos roubos, etc. Faço a minha parte respeitando as regras do Código de Trânsito Brasileiro – Lei 9.503 de 23 de setembro de 1997. Se eu usar o carro como meio de transporte, também estarei em perigo. Há muitos acidentes envolvendo veículos motorizados! Dirigir é perigoso. Andar é perigoso. Ir de carona é perigoso. Ir de ônibus é perigoso. Pegar táxi é perigoso. Não há escapatória! Haveria menos perigo se todos obedecessem ao Código de Trânsito Brasileiro. E também parassem de pensar: “Isso não vai acontecer comigo”.

É triste constatar pessoas considerando o ciclista nas ruas da cidade como alguém que atrapalha o trânsito… Algumas dizem: “Vá para a calçada!”. Veja estas regras:

Art. 57. Os ciclomotores devem ser conduzidos pela direita da pista de rolamento, preferencialmente no centro da faixa mais à direita ou no bordo direito da pista sempre que não houver acostamento ou faixa própria a eles destinada, proibida a sua circulação nas vias de trânsito rápido e sobre as calçadas das vias urbanas.

Parágrafo único. Quando uma via comportar duas ou mais faixas de trânsito e a da direita for destinada ao uso exclusivo de outro tipo de veículo, os ciclomotores deverão circular pela faixa adjacente à da direita.

Art. 58. Nas vias urbanas e nas rurais de pista dupla, a circulação de bicicletas deverá ocorrer, quando não houver ciclovia, ciclofaixa, ou acostamento, ou quando não for possível a utilização destes, nos bordos da pista de rolamento, no mesmo sentido de circulação regulamentado para a via, com preferência sobre os veículos automotores.

Parágrafo único. A autoridade de trânsito com circunscrição sobre a via poderá autorizar a circulação de bicicletas no sentido contrário ao fluxo dos veículos automotores, desde que dotado o trecho com ciclofaixa.

O ciclista não pode pedalar nas calçadas! O seu lugar é nas ciclovias e nas ciclofaixas. Se não há ciclovia ou ciclofaixa, ele vai transitar na rua. Ainda hoje há pessoas que consideram a bicicleta apenas como meio de lazer e de práticas esportivas. Não aceitam a bike como meio de transporte! Ora, se olhar a história do surgimento da bicicleta, vão ver que ela foi criada e pensada inicialmente para ser um meio de locomoção!

Veja isto:

Art. 29. O trânsito de veículos nas vias terrestres abertas à circulação obedecerá às seguintes normas:

(…)

§ Respeitadas as normas de circulação e conduta estabelecidas neste artigo, em ordem decrescente, os veículos de maior porte serão sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e, juntos, pela incolumidade dos pedestres.

Percebe-se que o Código de Trânsito Brasileiro prioriza o pedestre. O maior protege o menor, o motorizado protege o não motorizado e todos prezam pela vida do pedestre! Infelizmente, é pouco praticada. Os motorizados são as prioridades no trânsito. Ainda abrem mais ruas e constroem muitos viadutos e elevados. Poucas ciclovias e ciclofaixas são construídas. Geralmente, as calçadas são estreitas e cheia de buracos. Procurem comparar uma rua com uma calçada. A calçada em péssima condição, enquanto a rua está em melhor situação? Cadê a prioridade para o pedestre? Infelizmente, a teoria (legislação) é boa e a prática dela, lamentável.

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Pedalando na ciclofaixa do centro de Floripa a caminho da homenagem à Gabriel Serôa da Mota. Foto: André Luiz Silva

Já levei muitos sustos durante a pedalada. Motoristas em alta velocidade são um perigo! Quando estou transitando na rua, onde não há ciclovia ou ciclofaixa, e passa um veículo em alta velocidade ao meu lado, a bicicleta balança forte e posso cair. Os sustos mais fortes foram com motoristas de ônibus. Alguns ônibus já passaram de mim quase me encostando e me convidando a cair da bicicleta (ação conhecida como “tirar uma fina” em mim). Essa era (não sei se ainda é) uma queixa comum dos ciclistas de Florianópolis. Voluntários da Bike Anjo Floripa e da Via Ciclo fizeram um trabalho de conscientização junto aos motoristas de ônibus e sinto que obteve bons resultados. Não tenho mais ficado em situação de perigo com ônibus.

Por que os brasileiros dirigem em alta velocidade, mesmo com placas dando o limite máximo de velocidade? A resposta pode estar na cultura dos brasileiros. Veículo motorizado serve para chegar ao seu destino de maneira rápida. “Oba, agora tenho um carro e vou chegar mais rápido ao trabalho!”. Rápido pode ser sinônimo de alta velocidade. O carro deveria ser visto ou considerado como um veículo que oferece mais conforto e segurança. Por que não se fabrica um carro com velocidade de até 100 km? Por que cada membro de uma família com seis pessoas tem carro? Por que não se disciplinam a sair mais cedo e chegar ao destino sem dirigir em alta velocidade? Reflexões que vou deixar para outro post.

Até aqui se conclui que os problemas estão nas atitudes das pessoas, não é mesmo? Se todas as pessoas respeitassem o seu próximo, a vida de cada um seria melhor. Como não é assim, lutamos, choramos e reivindicamos por melhorias. Ciclistas lutam há anos por melhorias no trânsito. Lamentam quando são atingidos por veículos motorizados e agradecem por estarem vivos. Alguns, infelizmente, com sequelas físicas. Choram pela morte dos ciclistas que perderam a vida em acidente de trânsito. Opa! Acidente? Não, não. A maioria não foi acidente. Motorista bêbado, em minha opinião, é um assassino. Motorista dirigindo em alta velocidade, mesmo não estando embriagado, também assume a responsabilidade de matar alguém. O que me deixa revoltada é a falta de punição aos motoristas assassinos no nosso país. Precisamos de mais regras severas na legislação brasileira. Por exemplo, os motoristas nunca mais deveriam dirigir. Nunca mais deveriam comprar um veículo motorizado.

Desde que comecei a usar a bicicleta como meu principal meio de transporte, procuro estar atenta nas notícias relacionadas aos ciclistas. Esta me deixa muito triste: “Lu, você ficou sabendo de um ciclista que morreu na SC 401 por um motorista bêbado?” Já participei de manifestações e de protestos por mais segurança aos ciclistas. Ainda não tinha participado do evento da colocação de uma “ghost bike”. É uma bicicleta fantasma ou bicicleta branca em homenagem ao ciclista morto por um motorizado. Ela é afixada no local onde ele foi morto e costuma ter uma placa presa com nome, foto e datas do nascimento e da morte do ciclista. Além de ser um memorial, dá o seu recado para que os motoristas respeitem os ciclistas.

A primeira vez que participei na colocação de uma bicicleta branca foi em homenagem à Gabriel Serôa da Mota, professor de Química do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), que morreu no dia 05/10/2015 na Via Expressa Sul, aos 61 anos de idade. Retornava para sua casa depois de um passeio na praia do Campeche, quando um jovem motociclista furou o sinal em alta velocidade e o atingiu na faixa de pedestre. O impacto foi tão forte que Gabriel morreu no local e o motociclista veio a falecer dias depois. No dia 13/11/2015, houve a colocação da “ghost bike”, com a participação de dois filhos do professor que foram pedalando conosco até o local onde morreu e lá se encontravam os demais familiares e amigos. O trajeto começou no local de trabalho de Gabriel.

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“Ghost bike” em homenagem à Gabriel Sêroa da Mota numa noite chuvosa. Foto: André Luiz Silva

Quando o ano de 2015 estava chegando ao fim, recebi outra notícia de um ciclista que morreu pedalando. Róger Bitencourt tinha 49 anos, era jornalista e estava pedalando com mais quatro ciclistas na ciclofaixa da rodovia SC 401, próximo ao trevo do Jurerê. Era uma manhã de domingo de 27 de dezembro de 2015, quando foi atingido por um motorista bêbado. Também participei da colocação de uma “ghost bike” em 17 de janeiro de 2016. Antes disso, fomos ao velório prestar solidariedade aos seus familiares e amigos.

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Ciclistas a caminho do local da morte de Róger Bitencourt e um deles leva a bicicleta branca. Foto: Felipe Munhoz
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“Ghost bike” na SC 401, hoje considerada a rodovia da morte. Foto: Felipe Munhoz

Já no primeiro mês de 2016, Simoni Bridi também morreu pedalando na SC 401, próximo à entrada de Canasvieiras. Ela estava numa bicicleta elétrica e voltava do trabalho quando um motorista não identificado a atropelou no acostamento da rodovia por volta da uma hora da madrugada de 24 de janeiro de 2016. O motorista fugiu sem prestar socorro. Participei também da colocação de uma bicicleta branca em sua homenagem no dia 14 de fevereiro de 2016.

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Mais uma “ghost bike” na SC 401… Foto: André Luiz Silva

Essas mortes nos fizeram realizar mais protestos pedindo providências imediatas do governo estadual. Pedimos que a lei seca fosse sempre aplicada, por mais policiamento, colocação de câmeras, construção de mais ciclovias e ciclofaixas, etc. Até o momento, nada foi feito pelo governo estadual. Assim, na sexta-feira de 29 de julho de 2016, fizemos uma bicicletada cobrando o cumprimento de nossos governantes. Colocamos duas faixas. Uma com os dizeres de “Bem vindos à rodovia da morte” (SC 401). A outra de alerta com estas palavras: “Atenção: roubos a ciclistas e pedestres nessa região”.  Sim, além de acidentes de trânsito com vítimas fatais, temos a infelicidade de sermos roubados…

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Protesto em frente ao Centro Administrativo do governo estadual na SC 401 em 29/01/2016. Foto: André Luiz Silva
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Preciso de respeito e segurança! Foto: André Luiz Silva
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Bicicletada em 29/07/2016.
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Bicicletada em 29/07/2016. Foto: Fabiano Faga Pacheco

Mesmo com tanta falta de atenção e respeito ao seu próximo, sigo pedalando para o meu trabalho, ir ao shopping, visitar parentes e amigos, conhecer novos lugares… Eu gosto muito de pedalar. Poderia relatar aqui mais situações de falta de respeito que sofri no trânsito. Por outro lado, eu me lembro de muitas situações boas dos motoristas. Eu acredito que o nosso país vai melhorar na questão da mobilidade urbana.  Temos bons exemplos da Europa… Opa, o texto está ficando muito longo. Ficará para outra postagem. Ah, não estou defendendo que todos os ciclistas são santos. Há ciclistas irresponsáveis também, assim como os pedestres.

– Cuidado na rua, Lu!

– Pode deixar comigo, estou me cuidando!

– Lembre-se daqueles ciclistas que morreram por causa dos motoristas irresponsáveis, Luciana!

– Isso também pode acontecer comigo.

Bicicletada Ghost bike Reflexões

Luciana Vieira Visualizar tudo →

Blog que compartilha a minha alegria em pedalar. Evidente que não há só alegria, porque sabemos muito bem que o nosso país não valoriza os ciclistas. Melhor dizer: não pensa em todas as pessoas como os pedestres, os cadeirantes e os idosos. Além das experiências de minha vida como ciclista, este espaço trata sobre outros temas, mesmo não tendo relação com a bike. Dou um alerta: o fato de gostar de pedalar não significa que sou especialista nessa temática. Aqui são histórias, opiniões, relatos, o que vier da minha mente e eu julgar interessante de contar. Na primeira postagem deste blog, convido a ler sobre o motivo de se chamar Aquela que pedala. Quem escreve? Sou a Luciana Vieira, tenho deficiência auditiva e moro em Florianópolis/SC. Atuo como assistente administrativa em empresa federal de energia elétrica e, desde 2013, procuro usar a bicicleta para me deslocar ao trabalho. Comunicação Social com habilitação em Jornalismo é a minha formação acadêmica e não exerço a profissão. Sempre gostei de escrever e já tive o prazer de dar uma de escritora em blogs de amigos como o Máquina de Letras. Mais segura em escrever e expor no meio virtual, decidi ter o meu próprio cantinho. E assim Aquela que pedala vem a ser a varanda de meus escritos. Sugestões, opiniões, críticas? Escreva para o e-mail aquelaquepedala@gmail.com

4 comentários Deixe um comentário

  1. Texto excelente, Lu! Espero que possa inspirar outros leitores a pensarem sobre os riscos que, sim, existem, mas que não nos impedem de pedalar com segurança por aí, a partir das nossas próprias atitudes. Também pode acontecer comigo.

  2. Realmente Luciana sempre pensamos que as coisas só acontecem com os outros. Nunca com a gente mesmo. Muito bom o texto Luciana. Estás escrevendo cada vez melhor.

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